A revisão da NR-33 (Segurança e Saúde nos Trabalhos em Espaços Confinados) trouxe uma exigência bastante relevante: a necessidade de considerar, de forma expressa, os aspectos de segurança já na fase de projeto.
Embora a prevenção de riscos desde a concepção do empreendimento já fosse um princípio técnico consolidado, a norma passou a tratar o tema de maneira objetiva, incluindo item específico que remete à norma técnica aplicável e detalha os pontos que devem ser avaliados.
Isso reforça um conceito fundamental:
A segurança em espaços confinados começa no projeto — e não na operação.
No caso de unidades de recebimento, processamento e armazenagem de grãos, essa exigência tem impacto direto na viabilidade técnica, econômica e jurídica do empreendimento.
Principais pontos a serem observados no projeto
O desenvolvimento de um projeto de unidade de recebimento e armazenagem de grãos envolve diversas etapas técnicas e estratégicas.
Entre os principais pontos analisados normalmente estão:
- Capacidade estática de armazenagem
- Capacidade dinâmica de recebimento e expedição
- Anteprojeto arquitetônico
- Definição de fluxos operacionais
- Logística interna e externa
- Escolha de equipamentos
- Viabilidade comercial e retorno do investimento
Essas decisões impactam diretamente a competitividade, a eficiência operacional e a rentabilidade do empreendimento.
Entretanto, as exigências normativas relacionadas à segurança do trabalho — especialmente aquelas vinculadas à caracterização de espaços confinados — não podem ser tratadas como elemento secundário. Ignorá-las pode resultar em um cenário crítico: uma unidade recém-construída, com alto investimento realizado, mas em desconformidade com a legislação vigente.
Além do risco de autuações e interdições, adequações estruturais após a conclusão da obra tendem a ser tecnicamente complexas e financeiramente onerosas, comprometendo o retorno projetado do investimento.
A seguir, estão os principais aspectos relacionados a espaços confinados, que devem ser avaliados no projeto — ou ainda no anteprojeto — de unidades de recebimento e armazenagem de grãos.
1. Avaliar a possibilidade de eliminar o espaço confinado
A primeira pergunta técnica deve ser:
É possível eliminar o espaço confinado ainda na concepção?
Sempre que viável, o projeto deve buscar:
- Inclusão de aberturas adicionais
- Alteração de layout
- Substituição de soluções estruturais que gerem confinamento
A eliminação do risco é sempre prioritária em relação à mitigação.
2. Projetar acessos seguros e condições de resgate
O projeto deve prever:
- Aberturas com dimensões adequadas
- Múltiplos acessos, quando aplicável
- Espaço para retirada de trabalhador imobilizado
- Pontos estruturais de ancoragem
- Plataformas de acesso compatíveis com emergência
- Escadas fixas com corrimão
Em silos e túneis de grãos, essas exigências muitas vezes são ignoradas na concepção inicial, gerando adaptações posteriores de alto custo.
3. Ventilação e controle de atmosfera
Unidades de grãos apresentam riscos atmosféricos relevantes, como:
- Deficiência de oxigênio
- Geração de gases por fermentação
- Acúmulo de poeira combustível
O projeto deve analisar:
- Necessidade de ventilação mecânica permanente
- Posicionamento de entradas e saídas de ar
- Pontos estratégicos para monitoramento atmosférico
A ventilação não pode ser tratada como solução improvisada após a construção.
4. Reduzir a necessidade de entrada no espaço confinado
Um dos pontos mais estratégicos da nova exigência da NR-33 é reduzir a necessidade de entrada.
Boas práticas incluem:
- Instalar válvulas e medidores externamente
- Prolongar hastes de acionamento
- Prever inspeções externas
- Facilitar manutenção sem ingresso
- Selecionar equipamentos com baixa necessidade de intervenção interna
Projetar para evitar entradas rotineiras reduz significativamente o risco de soterramento e acidentes graves.
5. Proteções mecânicas e elétricas
O projeto deve contemplar:
- Proteção de partes móveis (roscas, elevadores, correias)
- Sistemas de bloqueio para manutenção
- Equipamentos elétricos adequados à classificação da área
- Controle de fontes de ignição em áreas com poeira combustível
Esses pontos são críticos, em geral deve-se atentar a NR12 e NR10.
6. Controle de fatores que agravam o risco
Também devem ser avaliados:
- Riscos de acúmulo de resíduos orgânicos
- Umidade e infiltrações
- Instalação de tubulações com produtos perigosos
- Níveis elevados de ruído
Esses fatores podem transformar uma estrutura inicialmente segura em ambiente de alto risco.
Conclusão: Segurança no projeto é obrigação — e Economia
A exigência trazida pela revisão da NR-33 não é apenas uma formalidade normativa. Ela reforça que a prevenção deve estar integrada à engenharia desde o início.
Em se tratando de custos, adequações de unidades que tiveram essas questões negligenciadas em projeto são extremamente caras — isso quando as medidas propostas não se tornam tecnicamente inviáveis de serem implementadas após a obra concluída.
Intervenções estruturais em silos, túneis e moegas já construídos podem demandar:
- Reformas complexas;
- Interrupção de operação;
- Investimentos elevados;
- Perda de produtividade;
- Improvisações em instalações novas
Estar atento às exigências de segurança na fase de projeto, além de ser obrigatório, é significativamente mais barato e tecnicamente mais eficiente.
Em unidades de recebimento e armazenagem de grãos, a segurança não deve ser vista como adaptação posterior, mas como critério de engenharia desde o anteprojeto.


